Ação traz jovens em liberdade assistida à Alerj

06/06/2018

“O que é democracia?”, questionou o jovem J.S., de 16 anos, ao visitar pela primeira vez o Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A pergunta foi essencial para uma visita guiada pouco usual, cujo objetivo foi discutir com adolescentes em conflito com a lei, questões relativas à cidadania. Os visitantes inauguraram, nesta quarta-feira (06/06), o Programa Eu Apoio, projeto permanente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) que irá levar a equipamentos culturais da capital os jovens que se encontram em situação de liberdade assistida. O Serviço de Psicologia da Vara de Execuções Socioeducativas da Capital (Vemse) é o órgão idealizador da medida.
“A resposta pra essa pergunta não é simples. A democracia, além de ser a expressão do poder advindo do povo, é também o desafio da representação, quando a população escolhe os seus representantes para defender as causas e pautas que eles acreditam e querem ver defendidas”, disse o deputado Wanderson Nogueira (PSol), coordenador do Parlamento Juvenil, projeto parceiro do Programa Eu Apoio. No corredor do palácio, cada um teve um pouco a contribuir com respostas diferentes. “A democracia é uma luta que sempre travamos para que os nossos direitos se concretizem e, às vezes, ela não acontece, como no Estado Novo”, exemplificou Juliana Valladas, guia que estuda História na Universidade Federal Fluminense. Já o deputado Eliomar Coelho (PSol), que encontrou os visitantes quando seguia para o Plenário, foi mais direto. “Você tem que lutar pelos seus direitos e não deve naturalizar as desigualdades sociais”, disse ao jovem J.S.
Ao fomentar uma discussão sobre temas como democracia, política e cidadania, o projeto do TJ-RJ tem como objetivo fazer esses jovens se expressarem, como explicou Marlise Eugenie, coordenadora do Serviço de Psicologia da Vara. “Normalmente, esses adolescentes são objetos de intervenção e a nossa proposta é que eles tenham algo a falar, não sobre os atos infracionais em si, mas sobre questões que eles considerem relevantes para a comunidade deles ou até mesmo para a cidade”, contou. Essa expressão, ela explicou, poderá se dar por forma de um relato escrito ou de um desenho, que será anexado ao processo judicial de cada um deles.

História fluminense

Durante a tarde, os adolescentes conheceram um pouco da história política do estado. A exposição permanente da Casa, “Palácio Tiradentes: Lugar de História do Parlamento Brasileiro”, faz uma retrospectiva desde o período democrático até o século XVIII, quando, no lugar do palácio, havia a chamada Cadeia Velha, que teve,
entre os presos, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Em meio a tanto conhecimento, houve espaço até para surpresas, como a de L.H, de 17 anos, ao conhecer a história da deputada Almerina Faria Gama, que participou da Assembleia Constituinte em 1933. “Achei legal que ela era uma moça negra e conseguiu escrever uma nova história mesmo com tanto preconceito”, afirmou.
Os jovens também conheceram o projeto Parlamento Juvenil, um capítulo mais recente da história do Rio de Janeiro. Luana Benevides, de 18 anos, e André Vinicius, de 17, foram eleitos em suas escolas para representar, respectivamente, os municípios de Duque de Caxias e São João de Meriti na Alerj, produzindo propostas legislativas. Eles falaram sobre a importância da juventude na política e como pequenas ações podem influenciar a realidade de cada um deles.
Benevides disse que espera que a sua experiência influencie o grupo. “Normalmente, a gente que é jovem não pensa muito no que faz e toma decisões precipitadas, principalmente por não conhecer o outro lado. E eu acho que eles tiveram esse conhecimento hoje, de que podemos ajudar outras pessoas da maneira certa”, declarou.

O programa

O Programa Eu Apoio conta com a parceria do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio) e tentará alcançar os mil jovens da capital que se encontram em liberdade assistida. “Esses meninos precisam de outras alternativas, como o que aconteceu aqui, com eles conhecendo essa outra realidade. É importante que eles tenham voz e não que a gente dite o que é melhor para eles”, contou Lúcia Perez, professora da Escola de Educação da Unirio.
O circuito do programa ainda contará com atividades do setores educativos do Museu Histórico Nacional e do Centro Cultural Museu da Justiça. As visitas guiadas dos jovens em liberdade assistida acontecerão sempre às quartas-feiras.

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