Agosto

05/08/2017

Eu já tive medo do escuro. Mas foi quando morei no escuro que mais apreciei a luz das estrelas. Eu tenho medo da morte. Eu não tenho qualquer receio da vida. Talvez por isso eu tema a morte, porque gosto um bom bocado da vida. A vida é essa aventura deliciosa que nos faz passear por extremos e entre extremos.
Já fui recheado de talvez. O talvez foi por algum tempo a minha maior certeza. Ainda estou no tempo do talvez, porque é certo que o futuro é cheio das condicionantes que fazem perfilar o talvez. Quem dirá que não?
Sou um escritor de poesias sem ser poeta. Cantarolo músicas no chuveiro, mas não sou cantor. Sou um homem simples, que como qualquer outro, murmura canções ao caminhar pelo parque e leva poemas debaixo do sovaco antes de comprar pão na padaria.
Já comi muito mais pão ontem do que hoje. Estão exagerando no fermento e meu estômago é sensível. Meu coração, mesmo visitado pelo cansaço, ainda teima. Pulsa numa ingenuidade que vigio, não para deixar de ser criança, mas para não ser egocêntrico. Ah, aprendi! A vaidade é, entre todos os pecados, a pior das virtudes. Impossível não tê-la e prudente evitá-la.
E o cotidiano é a rede que deito na varanda para assistir a noite chegar. É do retalho das horas que costuro vivências e observações. Vejo o sol se pôr e me deixo ser adotado pelo sol. Ainda que filho legítimo do sol, não preciso ser convencido para reconhecer a beleza da lua. Já tive medo do escuro. Mas foi quando morei no escuro que mais apreciei a luz das estrelas.
Digo a mim mesmo o que penso. Flutuo nas letras que invento. Mudo a ordem do alfabeto. A desordem, quando não traz o caos, cria certa atmosfera colorida. Eu não sei o nome de todas as cores. Não tenho a pretensão de descobrir o nome de todas as cores, ainda que nutra imensa disposição para experimentar. Criar novas cores, especialmente as que se fazem nos olhos que me apaixonam.
Deram de presente para mim uma flauta. Eu não sei tirar música soprando. Mas assovio enquanto meus passos caminham para a escola. Aprendo com as pessoas nas ruas. Elas correm, uma ou outra voam. Queria ser Halley. Sou apenas eu. Cometa que freia a velocidade do tempo, mas não se permite desacelerar. A vida é tão curta que o tempo que tenho me é muito caro. Levanto para só dormir mais tarde. Da família do sol, sou noturno. Tempestade solar me fascina. Derreto nos imensos vulcões que cospem os mistérios solares. A calmaria de vulcão que acabou de cessar é intimidade rara de quem olha no olho após gozar. Quem sou eu? Não queria responder, enquanto ainda descubro. Não posso responder de forma concreta quando sou abstrato e infinito.
Naquela gaveta guardei algumas cartas do passado. Elas me lembram que cresci, mesmo quando não quis crescer, pois eu já tive medo do escuro. Mas foi quando morei no escuro que mais apreciei a luz das estrelas.

Agosto