O IMPREVISÍVEL PREVISÍVEL

08/07/2017

Acaba o dia como um dia tudo vai acabar. Tiro a sujeira da mesa. Deixo a porta
entreaberta. O ventilador ligado é o vento artificial que refresca a face. Por mais que a
multidão me abrace, te abrace, sempre estamos sozinhos. Nossos segredos estarão
preservados, ainda que a janela esteja escancarada. Não há ninguém mais íntimo de nós
mesmos do que nós mesmos. Conhecer-se é assustador tanto quanto belo. Mas o que
temos além deste finito imprevisível?
A vida se parece muito com a morte e ambas caminham lado a lado. Ninguém precisa
ser ensinado disso, tampouco é necessário consulta à cartomante para saber qual é o
destino de todos nós. Talvez, o que se queira saber é apenas, onde, como e quando. O
porquê é auto-explicativo! Então, por que saber por quê? Nossa natureza é curiosa,
ainda que nociva, pois às vezes a busca por porquês nos faz esquecer coisas
importantes.
Um olhar jamais será igual a outro. Um rabisco de criança jamais poderá ser copiado,
pois toda a arte é única. Nenhum beijo pode ser comparado por mais parecido que seja.
Um abraço inesperado é a prova de que milagres existem e acontecem de repente. A
espontaneidade de um sorriso é mais forte que o sol que desperta na manhã. Ainda não
foi inventado nada mais fantástico que pegar-se observando alguém só por deixar-se
levar pelo fascínio de reconhecer que a vida não teria sentido sem esse momento. Nada
nunca foi e nunca será como um segundo atrás.
No escorrego da vida não há porque querer dominar a descida com as mãos. Solte o
corpo e deixe-se escorregar livremente. O fim não importa, pois é igual pra todos nós,
assim a jornada é o que diferencia um do outro. Olhe, rabisque, beije, abrace, sorria,
observe. Viva como quem sabe que vai morrer mais cedo ou mais tarde, mas viva! Se o
fim é previsível, o onde, como e quando continuam absolutamente imprevisíveis
recheados de inesgotáveis possibilidades.
Tiro a sujeira da mesa e por debaixo do pó dos anos vejo as fotografias de dias que
acabaram, mas que me relembram do quanto fui contemplado. E é pra isso que serve o
passado: trazer as lembranças e ser feliz por isso, mesmo sabendo que nada pode ser
revivido. A porta entreaberta se fecha, mas o movimento final me retorna a tudo que por
ali passou por convite ou sem convite, mas que me deram substâncias e personagens
para que pudesse escrever a minha história. A janela continua escancarada para que os
raios de sol possam iluminar as fotografias e as histórias, mas acima de tudo ficam
abertas à espera do vento que um dia virá para soprá-las e levá-las ao conhecimento de
todos. E assim, sozinho como vim ao mundo, parto com o dia que finda, ontem para
meus ancestrais, hoje para mim e amanhã para outros muito mais. Dias que encerram
um roteiro de muitas horas, testemunhas de que aqui estive, comprovando o quanto o
tempo é curto, mas o tanto que intenso pode ser a jornada sempre imprevisível para o
previsível desfecho que é a vida de cada um de nós.

O IMPREVISÍVEL PREVISÍVEL