Um dia

17/03/2018

O tempo passa e no furor das horas nos distraímos. Simplesmente nos distraímos no
compasso e descompasso da diversão de chorar e sorrir. Conversamos bastante, mas
pouco confessamos nossos segredos mais íntimos. Os sentimentos. As verdades que
zombamos não acreditar, apesar do punhado de certezas que se desenham ao longo da
história que se estende à nossa frente e diz: “você sabe o que fazer. Você sabe o que
precisa ser feito. Por que se perguntar tanto, se você já tem as respostas?”
Caçadores de respostas mais do que de aventuras frutíferas! Colecionadores de
futilidades que fogem rapidamente. Há futilidades pertinentes, mas raramente serão no
fim de tudo importantes.

Eu não gostava de azeitonas até experimentá-las e descobrir o quanto são deliciosas!
Perdi muito tempo não comendo azeitonas, simplesmente por supor que não eram para
o meu paladar. Na verdade a gente perde muito tempo supondo. Evitar, deixar pra lá... É
assim que se perde a vida... E só há um jeito de se perder a vida – vivendo!
Vivendo caminhamos para a morte sem perceber, e, mesmo nem sempre vivendo de
fato, ainda sim caminhamos para a morte. Perderemos quem amamos e quem nos ama
também nos perderá. É a lei da vida! É a regra do jogo! Assim, seria aconselhável não
perder sequer um dia!

Um dia! Um dia de cada vez! Iluminando alguém e se deixando ser iluminado por quem
te salva sem que peça para ser salvo ou que tenha a intenção de ser santo só por estar te
salvando! Quando alguém dá a sua alma e distribuiu seus milagres – aceite de bom
grado e valorize isso! Não deixe chegar um dia em que sinta falta disso, simplesmente
porque você foi tolo e dispensou a glória de ser amado. Não deixa também chegar um
dia em que perceba que não foi tolo o bastante por glorificar um rosto, mesmo que não
te reconheça glorifique um rosto, porque faz bem insistir em ser milagre para alguém.
Um dia você percebe que pode estar solitário no meio da multidão, mas um dia você
percebe que estar sozinho nem sempre significa que você está solitário. Ninguém
nasceu para ser solitário. O desenho de nossas vidas se preenche com outras vidas que
nos dão a garantia de que o mundo é bom.
Não é acaso saber que na vida nada acontece por acaso. É erro desconsiderar o que os
fatos nos falam. É tolice desviar do que os encontros nos ensinam. Cada fato é um
convite a ver além do que se vê para prestigiar o milagre. Cada encontro é um apelo a
mais para imergir no sagrado e se confundir iluminado na luz que nos cerca.
Um dia, parando para ver a lua é que avancei. Acima dos meus olhos, tudo aos meus
pés. O futuro não pode cadenciar nossas escolhas. Só temos o presente com as lições do
passado. Temos um dia! Não temos nada nas mãos e ainda que nada em mente - os
anseios do coração. Mas esses anseios não podem nos cegar para este um dia que ocorre
e passeia pelos nossos passos! O dia não carrega nossos passos, mas segue ainda que
não sigamos. Acontece.

Temos o direito à tristeza, tanto quanto à alegria. Temos o direito de dar as mãos e de
repente abraçar uma alma. Temos o direito de sentir o coração vazio ou apertado para
saber que ainda temos coração. E, quando descobrimos essas coisas, encontramos de
certa forma alguns porquês: estamos vivos agora, talvez tenhamos um mês, um ano,
uma década ou mais, mas de certo é que temos um dia. Um dia para sentir. Um dia para
fazer o que tem que ser feito. Um dia para dizer o que se quer dizer e se deixar ouvir o
que se quer ouvir. Um dia para convidar alguém para correr nas colinas. Um dia para
trazer o sol para as ruas de seus afazeres. Um dia para se derreter na chuva. Um dia para
queimar na lua. Um dia para declarar o que tem que ser dito, pois a vida e o tempo são
conjunções complexas, mas não complicadas, quando você sabe que tem um dia. Há
perigos no amanhã, há riscos no caminho, há incertezas quando se trata de dois ou mais
corações, mas quando se tem um dia, você valoriza cada fato, porque aprecia melhor
tudo, aprecia mais detalhadamente o dia e tudo que nele se compõe, se constrói e se
desfaz. Você pode... Um dia... Antes que seja tarde. Um dia...

Um dia